Estudo Revista Sala Preta (grupo 4)
Instituto de Artes - Ida
Departamento de Artes Cênicas - CEN
Professor Marcus Mota
Thamiris Lima
Clarissa Melasso
Jerônimo Camargo
Arthur Scherdien
Heloísa Palma
Departamento de Artes Cênicas - CEN
Professor Marcus Mota
Thamiris Lima
Clarissa Melasso
Jerônimo Camargo
Arthur Scherdien
Heloísa Palma
ESTUDO SOBRE A REVISTA “SALA PRETA”
A Revista Sala Preta é
uma publicação que se propõe a oferecer artigos, textos e imagens acerca de
espetáculos em destaque nos palcos brasileiros, dialogando com o surgimento de
novas metodologias e abordagens no campo das artes da cena. Em seu periódico
publicado semestralmente, a revista dispõe de seções para discutir as
principais produções artísticas em São Paulo, e também em outras regiões
brasileiras, além de oferecer entrevistas e dossiês acerca de peças e artistas.
Faz parte do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, que é vinculado à
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
De forma a contextualizar o leitor e trazer um leque de assuntos interligados, a revista tem como organização própria a ideia de estabelecer um tema central para cada periódico, ou seja, os artigos da edição se comprometem a dialogar sobre um mesmo núcleo temático visto sob diversos vieses e subtemas. Em uma edição, falam majoritariamente sobre performance; em outra, discorrem sobre iluminação e sua influência na dramaturgia teatral; noutra, fala sobre a historicidade do teatro. No entanto, o grande diferencial da revista é que ela faz comparativos sobre como tais assuntos se enquadram no contexto atual e contemporâneo ou em tal região e companhia teatral, e como são afetados pelas mudanças tecnológicas, de pensamento; em suma, como o teatro e seus fenômenos podem ser reinterpretados sob a ótica de mundo atual.
As temáticas que se repetem nessa revista giram em torno da contemporaneidade, como o lugar no espaço-tempo em que as sociedades se encontram e as novas reflexões acerca do teatro no Brasil. Há menção a respeito de atividades performativas tanto nacionais como internacionais. Por exemplo, na última edição do 1º semestre de 2016, a revista discorre sobre um dos grandes artistas latino-americanos vivo, o peruano Miguel Rúbio, do grupo Yuyachkani, que reúne em apresentações cênicas as manifestações típicas de tradições festivas do Peru, mostrando como o popular está presente na performance. E na mesma edição, há um paralelo traçado com as manifestações culturais de certas regiões no Brasil, seus ritos e suas leituras acerca da realidade. Na edição imediatamente anterior, há também menção acerca de atividades performativas dos grupos Vértice de Teatro e Teatro da Vertigem e de como a performance pode encontrar novas formas de relação com o espectador. A performance, que vez ou outra é citada pela revista, é destrinchada e entendida como o lugar do contágio com a vida, onde é possível a existência de um teatro multidimensional, isto é, aquele que é visto sob vários ângulos pelo público.
O tema da corporeidade e seu papel no teatro também é discutido várias vezes nos textos apresentados, porém sempre relacionado à nova interpretação contemporânea do que é o corpo e sua função no exercício cênico.
Na tabela a seguir, os temas principais e suas aparições estão elencados:
REVISTA
SALA PRETA
|
|
Tema
do artigo
|
Quantidade
nos últimos três anos
|
História
do teatro brasileiro
|
19
artigos
|
Performance
|
11
artigos
|
Comentários
e críticas sobre espetáculos
|
16
artigos
|
Influência
da filosofia no teatro
|
5
artigos
|
Iluminação
teatral
|
11
artigos
|
Teatro
de Paucartambo
|
2
artigos
|
Teatro
autobiográfico
|
10
artigos
|
Corporeidade
e dança
|
4
artigos
|
Dramaturgia
|
3
artigos
|
Os artigos que se
destacaram estão descritos a seguir.
Um artigo que chama bastante atenção é o “Fernanda Montenegro em O mambembe: o quelque chose da diva moderna” de Gustavo Guenzburger presente no Volume 15 Nº1 da revista Sala Preta. A partir da personagem Laudelina interpretada por Fernanda Montenegro na peça O Mambembe de Artur Azevedo, Gustavo Guenzbuger levanta uma reflexão sobre as mudanças na qual o teatro brasileiro se submeteu ao longo dos anos. O Mambembe conta a história de um grupo de atores que vivem na tentativa de se sustentar através da arte e que precisam do financiamento profissional, mas não querem se submeter ao teatro puramente comercial. Assim foco principal do artigo não é necessariamente no desempenho da atriz Fernanda Montenegro como Laudelina, e sim em como a indústria televisiva influenciou e tem influenciado a produção teatral brasileira, e no equilíbrio que a atriz em questão consegue manter entre ambos. É um excelente artigo para se fazer pensar sobre o ofício do ator e a valorização acerca do mesmo.
O
artigo “Uma redefinição do teatro político” de Patrice Pavis usa como base o
livro Danielle Merahi, que tem artistas de várias áreas das artes pra explicar
sobre o “teatro do real”. E com essa noção permite redefinir o teatro
documentário e político centrado na observação da realidade.
Não há grande surpresa para Pavis em relação à especificidade da escritora ao falar dos teatros do real, pois o real e o realismo não qualificam esses teatros do real, mas a possibilidade de construir e explicar o real a partir dos procedimentos artísticos de determinadas obras. Porém, com o olhar distanciado da autora, se enxerga e se descobre uma nova faceta desse teatro do real, surgindo uma nova face do teatro, uma face oculta, mas emocionante. Nessa abordagem, o avesso do teatro não é a ilusão; a ficção; a teatralidade, mas vida social, a política, a luta de classes, a sobrevivência econômica e o cotidiano.
Os autores citados por Danielle servem de exemplo para esse teatro mais social e politizado, mostra a coragem de realmente se esforçar e pôr a mão na massa, fazer um teatro pobre, mas saindo da idealização antropológica de Gerzy Grotowski e sim uma questão precária de um espelho a sua vida cotidiana.
Não há grande surpresa para Pavis em relação à especificidade da escritora ao falar dos teatros do real, pois o real e o realismo não qualificam esses teatros do real, mas a possibilidade de construir e explicar o real a partir dos procedimentos artísticos de determinadas obras. Porém, com o olhar distanciado da autora, se enxerga e se descobre uma nova faceta desse teatro do real, surgindo uma nova face do teatro, uma face oculta, mas emocionante. Nessa abordagem, o avesso do teatro não é a ilusão; a ficção; a teatralidade, mas vida social, a política, a luta de classes, a sobrevivência econômica e o cotidiano.
Os autores citados por Danielle servem de exemplo para esse teatro mais social e politizado, mostra a coragem de realmente se esforçar e pôr a mão na massa, fazer um teatro pobre, mas saindo da idealização antropológica de Gerzy Grotowski e sim uma questão precária de um espelho a sua vida cotidiana.
A
partir de uma grande pesquisa histórica a escritora examina em detalhe as diferentes
tendências desses teatros do real. Mostra a originalidade de cada forma ou de
cada experiência. Sua tarefa é dupla: por um lado, identificar as obras e os
gêneros que se expandem e nos abrem para a realidade; por outro, indicar que
tipo de real aparece em cena e como o espectador pode acessá-lo.
O trabalho de Danielle
Merahi, fundamentado e preciso, poderia servir de guia (ou ao menos de
inspiração) nessa reconquista do real e dos meios de influenciá-lo
politicamente. Quem não tem, como ela, a nostalgia do “prazer de ir ao teatro”? Para que a cena volte a ser esse lugar de encontro e
conquista da palavra? Esse espelho que reflete nossas vidas? Nesses
tempos pós-modernos e pós-dramáticos, nesses momentos de desânimo
sociopolítico, é preciso coragem para recusar as facilidades do teatro de
entretenimento e de conforto, esse teatro que arrisca pouco e se conforma
rapidamente à moda e ao mainstream. É preciso, em suma, a coragem de engajar a
vida na recusa das injustiças, na confiança dos poderes da arte e na vontade
irrepreensível de pensar sobre o real.
Outro artigo de que gostamos foi “Arquivar a Coisa”. O trabalho, escrito por Diana Taylor e traduzido por José Yoshitake está presente no Volume 14 Nº1 da revista sala preta.
O artigo tem como eixo principal o desenvolvimento de questões
abordadas e vivenciadas pela autora na performance Bom Retiro 958
metros, do Teatro da Vertigem. Como questionamento inicial, é afirmado
que depois do Arcontado, local onde eram armazenados e
organizados inúmeros documentos e materiais oficiais, a palavra arquivo carrega
a conotação de organização governamental desenvolvida para garantir a
preservação do acesso, muitas vezes restrito, às informações contidas nele.
Além disso, a autora discorre precisamente sobre as crenças das organizações
governamentais ocidentais na neutralidade e na imutabilidade dos fatos ali
presentes, acreditando piamente na imparcialidade e inflexibilidade dessas
informações.
Mas onde a autora quer realmente chegar é na dificuldade de se
descartar coisas, sejam elas informações, objetos, roupas, bonecos, estacas de
madeira. Não se descarta nada numa perspectiva altamente ampla, uma vez que há
destinação para tudo dentro do planeta em que vivemos. Juntamente com esse
ponto da discussão, vai se tecendo uma nova impressão do significado da palavra
coisa: coisa é aquilo que tem diversas finalidades, que pode ser utilizado para
desempenhar ações diferenciadas.
O artigo segue traçando a similaridade que existe entre objeto,
local e prática. Esses três elementos se conectam, como vai sendo apresentado
no relato de Diana sobre o que a performance vai alterando dentro dela mesma, e
o que essa alteração desencadeia no próprio espaço em que a autora se encontra.
A performance Bom Retiro 958 metros acontece no bairro de Bom
Retiro localizado na cidade de São Paulo. Os performers desse trabalho
desenvolveram um percurso com inúmeras interferências sensoriais, trazendo à
tona questionamentos e sensações únicas, uma vez que o Teatro da Vertigem
transforma um pedaço da cidade numa grande experimentação cênica, como eles
mesmos colocam ao definir a concepção da performance. Um grande centro de lojas
e um teatro abandonado fazem parte desse percurso, onde todos os presentes se
conectam através do receio de estarem ali presente nesses lugares, na
escuridão, sendo circulados por vultos e frases que ecoam nas cabeças de quem
as ouve.
A grande questão desse trabalho é como arquivar e tornar permanente as sensações e registros de obras artísticas tão efêmeras. Como realizar o registro da performance? Como transmitir o que foi vivenciado pelos que estavam presentes? São questões complexas que necessitam estudos mais aprofundados. O artigo da professora e autora Diana Taylor é uma ótima ferramenta de estudo para as artes cênicas, pois ela vai relatando as sensações que teve no momento da performance, possíveis impressões e concretíssimas imagens sinestésicas que iam surgindo e se desfazendo diante dos olhos, pele e ouvidos.
A revista Sala Preta é um amplo campo de pesquisa para todos que
desejam se envolver e obter conhecimentos riquíssimos à cerca do mundo
artístico, em especial, teatral e performativo. Com seus temas e edições semestrais,
a revista completa 15 anos de publicações riquíssimas para os artistas de todo
o mundo, sendo 10 anos de publicações impressas e 5 anos de publicações através
do site www.revistas.usp.br/salapreta/index, acessíveis para todos e todas.

Trabalho completo. bem escrito. e seguindo as solicitações do exercício.
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